Destroy what destroys you.
theme

"Era loira, de pernas longas dentro de um short de brim, dois olhos azuis-claros bem pequeninhos, parecia uma sueca ou holandesa ou algo assim. Tinha sardas no rosto afável, o nariz meio batatudinho enfeitado uma argolinha delicada e algumas gordurinhas simpáticas saíam para fora da blusa. A bolsa de pano, os tênis sem meia, o cabelo amarrado, uma medalhinha prateada, que deve ter ganho da mãe aos quinze. Quando o rapazinho com uma touca estilo Alberto Roberto completou meu almoço com o cone de batatas fritas, peguei minha bandeja e me alcei para a mesa mais perto. Você sabe, eu ia comer sozinho e só queria uma vista agradável. Me acomodei, abri a caixinha do sanduíche e despejei as batatas fritas na parte superior dobrada, como faço sempre, quando não muito raramente venho aqui. Nós estávamos numa daquelas franquias multinacionais que anunciam seus hambúrgueres minúsculos na televisão o tempo todo. O lugar não estava muito cheio. Foi então que um pequeno sujismundo, operário do semáforo próximo ao arroio lateral, veio de mesa em mesa: – Tio, paga um lanche pra mim? Ô, tia, paga um lanche pra mim? Paga uma batatinha pra mim, tio? Antes da minha vez – que alívio –, um guardião antissocial uniformizado o convidou por bem a se retirar, e todos nós do saguão deixamos de lado o nosso constrangimento e voltamos para as nossas refeições de vinte reais com refrigerante à revelia, para o nosso lanche feliz. Total clima de propaganda no intervalo da novela. Foi quando a moça largou tudo, bolsa e comida e telefone, para uns minutos depois voltar com o garotinho à tiracolo. Foi até o caixa, dialogou, estendeu um Visa, retornou, assentou o faminto no banco fixo à sua frente. Pretinho, careca, chinelo de dedo, uma camiseta amarela meio Charlie Brown tamanho grande, bem maior do que ele. Chamando atenção, tímido e apreensivo, devorando seu big-ultra-mega-hiper-super-com-molho-especial. A cara da sociedade derreteu. O sorriso baixo-burguês morreu. O segurança intercedeu: – Eu não tinha te botado pra fora? “Ele é meu convidado”, ela disse. O grandalhão retrucou “Lamento minha jovem, mas ele não pode ficar aqui”. Bem seca e discreta e impassível, ela teimou com olhos de escopeta: “Se você não nos deixar em paz, eu faço uma gritaria”. Ela não fez nenhuma gritaria. Paz no mundo. E todos nós, que não pensamos nisso que ela pensou em fazer, e se pensamos jamais teríamos coragem de executar o plano, podemos comer à vontade, nos sentindo do tamanhozinho dos nossos hambúrgueres ridículos. E olha que isso já faz algum tempo, não era dezembro, nem tinha clima pra Natal."- Gabito Nunes em A mãe dos meus filhos (ou “Um conto de Natal”)

"Mas eu queria suas mãos nas minhas."- As Cores.

"Ah por favor, não se iluda. Talvez chamem você de “amor” porque esqueceram seu nome."- Ryan Rocha. 

"Ruído de rádio mudando de estação, bom-bril na antena da TV, cachorro latindo lá fora, tardes ensolaradas, amigos tantos - pra onde foi tudo isso?"- Caio Augusto Leite

"Diz a lenda,
Que as mais belas
Histórias de amor,
Estão perdidas
Nas reticências."
- Stella Teixeira

"Esse é o problema da bebida, eu pensei, enquanto me servia de uma dose. Se algo ruim acontece, você bebe para tentar esquecer; se algo bom acontece, você bebe para comemorar; e se nada acontece, você bebe para fazer algo acontecer."- Charles Bukowski